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Apresentação de trabalhos literários.

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OCEANO POETASTRO4/15/2008

Inicialmente publicado em http://www.portugal-linha.pt/

 

 

As mentes dos governantes são subdesenvolvidas, os países não. Então, muitos bancos, muitos financeiros, muitos aventureiros.
Um bando de meia dúzia de pardais, riquíssimos de tanto roubar, impõem fome a milhões. Alardam que o crescimento económico (deles), apresenta números nunca vistos. E a hipocrisia universal apoia-os, sedenta dos vapores petrolíferos.

Se há um excelso poeta, como alguns dizem, e serve-se das palavras para assentar a ideologia da dúvida ametódica "penso, logo não existo." E messiânico liberta uma nação da opressão. Arrasta milhares de mortos, proclama a independência e a liberdade vigiada, provoca mais guerra com mais milhares de mortos. Deixa analfabetismo, miséria, epidemias, fome. A melódica Água Lusa reconhece-o, esse homem é muito mau poeta. Assim como outros seguidores desse oceano poetastro. Agostinho Neto, António Jacinto, António Cardoso e outros… poetas generais no poder da democracia generalizada, militarizada. Combinam com os séculos, com as cargas na cabeça sem rodas, sempre à roda. Quando governantes aliançados com estrangeiros, exterminam populações pela fome, sempre saudosos dos estalinistas em Holodomor, e os clientes petrolíferos consentem, isso é um acto do mais vil, ignóbil terrorismo militante internacional.  

Fazer poesia facilita-se. É por isso que temos muitos poetas. Dá menos trabalho, e serve para promoção pessoal e política. Escrever uma novela é um grande sacrifício. Um romance? Não! Isso dá para escrever mil livros de poesia. O que interessa é a vaidade de dizer que escrevi e publiquei um livro. Depois dizer umas bacoradas aquando da sua publicação.
E elas pisciformes, piscinais, e eles delambidos para elas, resfriam-se nos rótulos das mais caras garrafas uiscadas, surripiadas aos vencimentos dos trabalhadores que há meses, anos, não se pagam. Para poucos a vida é sempre boa, para muitos a vida é sempre má. Para poucos há sempre água, para muitos nunca há.
Não devemos, não podemos aceitar que se deixem morrer crianças, seres humanos à fome, quando se gastam milhões de dólares injustificados.

E a Marta, cambista de rua, explica à mocinha que a nota de cem dólares é falsa. A mocinha desacredita-se, lamenta a vigarice da noite perdida.
- Grande cabrão, sacana de merda… lhe fiz todas as posições!
E desata a chorar, a cascatear muito. Mais que a tormenta da água fingida das torneiras. A Marta consola-a:
- Esse senhor é muito mau. Deixa lá minha filha, Deus há-de castigá-lo.
Depois, a Marta levantou o nariz, como uma sonda aérea, e aspirou, e o ritmo aumentou. Sentiu obrigação de prevenir as amigas, a Teresa e a Emília.
- Manas, ué, não sentem o cheiro!?
A Teresa é a mais espevitada. Sempre com os ouvidos alerta. Ganhou, conquistou fama, é a zongola eleita da periferia. Sabe tudo, não deixa escapar uma.
- Esse cheiro vem do minimercado. Logo à entrada, já cheira a carne estragada. Já acampada assim há um ror de dias. São as câmaras do frio que não funcionam bem…
- Também com a luz deles… - interrompe a Emília.
… E a água sempre a pingar do tecto, nos cantos também cheira mal. Vão ficar sem clientes.
A Marta olha para o saco a confirmar se as notas de dólares não fugiram devido a algum feitiço. Satisfaz-se, não saíram do lugar. E arremete:
- O PML…
… Mana isso é quê? - Perguntam as duas.
… PML manas? É o Partido Marxista-leninista. O dono do minimercado é militante dele. A fiscalização do governo e a polícia económica não lhe pegam, gasosam-se bem. É tudo deles, fazem o que querem. Para nós nem sobras.
A Teresa põe a mão na boca, sinaliza espanto porque olhares desabituados olham-na com malvadez, como entregues às moscas. A Teresa relembra que tudo ficou na mesma, tudo piorou sem solução.
- Os brancos só da maneira que nos olham, quando passam olham-nos com tanto desprezo, como se fossemos lixo. Todos os dias antevejo carapaças novas de brancos e brancas. Se não há empregos, como é que eles arranjam trabalho?
A Marta ri, é só o que ainda lhe resta do encanto. Vibra melodiosa:
- Eh! Eh! Se até chineses já andam na zunga.

Estes nossos poetas resvalam no transbordado oceano Atlântico. E petrolíferos despoetizam-se cabalmente, não é!?

Os punhais ocidentalizados
Nas naus da espuma branqueada
Aguardam indecisos
Nos esconderijos oceânicos
Punhais negros não erguidos
Retraídos nas violências
Das consciências
Os punhais agora cansados
Rasgam seios importados


E eis mais um confrade, regressado da acrópole, ingressado no Parnaso presidencial.

Gil Gonçalves

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PATRÍCIA4/10/2008

PATRÍCIA

Os teus passos caminhavam inseguros

Não pises os jasmins, implorei-te

Enquanto os solares raios te enlaçavam

Sabia que ias suspirar enlevada

Antes que descaísses cansada

E tantos jasmins só numa braçada

Tanto aroma, tão adocicada

Tanto para andar, e tu tão enevoada

Encheste o teu palácio de jasmins

Perdeste a tua orada morada

 

E dormias, e sonhavas e te envolvias

No crescimento incomensurável dos jasmins

Que entraram pela janela do teu quarto

E ainda dormias, e ainda sonhavas que já eras jasmim

E despertaste, e estavas plantada

Estátua no vaso de porcelana

Minha estátua, meu Jasmim-Porcelana

 

 

 

Anseio entrelaçar os meus, nos teus dedos

Nas mãos, e acariciá-las, e olhar-te nos olhos

E penetrar, devassar o âmago, o infinito

O infinito corpóreo do paralelo quântico

E depois alugar, residir nos jardins

Dos jasmins suspensos no teu coração

 

 

 

E finalmente voltei, não acreditavas, confiavas, desconfiavas. E como assegurámos nas palavras, o que sentíamos abraçámos. Tantos sorrisos espelhados nos olhares ternos de apaixonados cúmplices. E desajeitados, (era o renascer da primavera da vida) reaprendemos o entrelaçar dos dedos nas nossas mãos. Enjaulámo-nos no nosso corpo. Como a desejada nova religião, uma Deusa, eternos Deuses.

Tínhamos de caminhar, e os nossos braços balançar

Na floresta de chão folhado e copas amareladas,

Quase esverdeadas dos ténues rumores coroados, ensolarados do arvoredo.

De repente o folhado ganhou vida, agitou-se

Por possante ventania. E tudo à volta escureceu

As árvores estremeceram, como num sonho,

E tudo anormalmente se moveu. Violentas bátegas fustigaram-nos como navio na procela olhado além-mar.

Cansados, remolhados e esgotados

Docemente deixámo-nos escorregar, e encostar

No acolhedor tronco arbóreo. Juntámos o calor

Enternecedor das nossas almas corporais, imateriais.

Unimo-nos ao florestado, e a nossa pureza libertou-nos

Extasiou-nos, Endeusou-nos.

 

 

 

 

Gil Gonçalves

 

 

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O LIVRO APÓCRIFO DE JOB (I)4/10/2008

O LIVRO APÓCRIFO DE JOB (I)

Depois de uma grande batalha militar ganha, os anos passam, a fome continua, aumenta. Não teve valor essa batalha.

As desgraças do faminto

A adversidade do Sempiterno é cruel para o faminto

Com pele e ossos estão sempre à nossa mercê. Esse é o nosso segredo. Então o Sempiterno saiu deixando um pouco de sal na ferida do faminto, dizendo que era um feitiço bom. A sua mulher disse-lhe: não entendo como é possível, passados trinta e tal anos ainda acredites no Sempiterno. Amaldiçoa o Sempiterno para que ele morra. O faminto respondeu: és doida, nós estamos habituados a receber mal do Sempiterno, nunca recebemos bem. É preferível aceitar o Sempiterno, porque sempre podemos roubar qualquer coisita. E veio uma delegação de três membros com o feiticeiro da água benta consolá-lo, e disse: Que naquele tempo fizemos uma matança, e que o faminto não se esquecesse dela. E lançaram-lhe um sobre a sua cabeça, feito especialmente por um ancião de Malanje. E ficaram com ele mais de sete dias e sete noites, até que jurasse que nunca abandonaria o Sempiterno do seu coração.

O faminto amaldiçoa o Sempiterno pela miséria que lhe causou

Depois disto o faminto tornou a amaldiçoar o dia em que o Sempiterno se apoderou do poder. E disse: pereça o dia em que nasceu. O dia em que foi concebido. Há os que nunca deviam ter saído das trevas. Por vezes Deus engana-se, e dá luz a quem a não merece. Que o Sempiterno fique sempre nas trevas, mas como o obrigar a retornar? E que as nuvens mais escuras entrem na sua cabeça. E nela desabem cascatas de pedra, e o empedre na noite dos tempos. Mas retornamos sempre… à espera que o Sempiterno nos lance para o pranto. Escureça-se a estrela do seu coração. Que a luz do Sempiterno não venha. Que as mulheres cosam os ventres, apertem bem as pernas, para que o signo do Sempiterno nelas não penetre. E que conseguindo penetrar, saindo do ventre com o signo do Sempiterno, que logo expire. Se não expirar, que as mamas não deitem leite. Porque assim poderei repousar em paz. E que não venham os habituais conselheiros, como esse da água benta assolar-me. E que não me tragam nem uma gota desse maldito ouro negro, como unguento. Estamos cansadas de fazer abortos ocultos por causa do Sempiterno. Os maus do Sempiterno perturbam-nos, e nunca se cansam. O Sempiternomuita força. Estamos todos reféns do Sempiterno. Os juízes não nos defendem. Eles são os grandes, ensinam-nos que não podemos ficar livres destes senhores. Porque eles são os que dão a vida e a morte aos miseráveis. Insistem na sua amargura. Que esperam a morte, anos e anos, a cavar à espera de encontrar algum diamante oculto. Mas normalmente encontram a sepultura. Porque se dá luz ao Sempiterno? Porque não está sempre encoberto? Com tanta água, gemo e suspiro porque não consigo fazer o meu pão. Porque o que temia do Sempiterno veio, e realmente aconteceu. Nunca mais tivemos descanso, nem sossego, nem repouso. Aprendemos a viver com a perturbação do Sempiterno.

O Sempiterno repreende o faminto

Queres abandonar as nossas fileiras? Estás cansado dos nossos discursos? enganaste muitos, conforme te ensinámos, estás cansado de os enganar? Eles procuram-te, diz-lhes qualquer coisa, como por exemplo, que nem daqui a cem anos a vida vai melhorar. Diz-lhes a verdade, com essa mentira. Eles acreditam em tudo. No princípio acreditavas no nosso Sempiterno, na nossa ideologia, e agora descobriste que tudo não passa de baboseiras. é tarde! Agora queres ficar inocente? Esqueces-te que também os destruíste? Quem persistiu no grande Sempiterno, tem que aguentar as consequências. O pior é se nos julgarem depois, e enviarem-nos para uma prisão. Eles estão consumidos na ira. Quem sabe, até podemos escapar. Enquanto estão entretidos com a feitiçaria, vamos avançando.

 

Gil Gonçalves

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O PRÉDIO (É O FIM)4/6/2008

Publicado no Jornal O Observador http://observadormocambicano.blogspot.com/

 

O PRÉDIO (É O FIM)

AVISO

A comissão de moradores do prédio, vem mais uma vez, chamar a atenção dos moradores para tomada de consciência dos graves problemas de energia eléctrica que o nosso edifício apresenta. Como é do conhecimento de todos, recebemos vários avisos por parte da EDEL nos quais declinam quaisquer responsabilidades, sobre eventuais prejuízos humanos e materiais resultantes do mau estado da instalação e que futuras intervenções à quaisquer anomalias no edifício, ficarão condicionadas ao cumprimento estrito da sua recomendação.

O prazo para reparação está esgotado e na reunião marcada para analisarmos os problemas de energia do prédio notou-se uma fraca aderência dos moradores. Por isso, e se quisermos mudar este quadro, a comissão de moradores vem por este meio avisar os moradores que devem contribuir por apartamento com a seguinte quantia para a referida reparação:

200 USD, para pagamento da mão-de-obra

300 USD, para compra do material

A referida quantia deverá ser entregue no 3º andar Esq., e quaisquer duvidas serão esclarecidas e as opiniões serão bem vindas. O prazo para entrega da quantia, segundo acordado na reunião é dia 20 de Março. Findo este prazo a comissão de moradores declinará quaisquer responsabilidades sobre o assunto e passará a responsabilidade para os moradores que não fizerem o pagamento no prazo estipulado. A Comissão.

dois andares, podemos dizer três, que não necessitam de intervenção. Também, por oito metros de cabo eléctrico e dois fusíveis pagar-se 1.000.00 USD por andar, cada tem dois apartamentosisto chama-se aventureirismo empresarialnão admira que enriqueçam rápido. E sabe-se de antemão que tudo ficará pior que antes. Nada melhora, sempre a piorar, todos mandam, não existe lei, a não ser a petrolífera, o resto que se lixe, quepara as calendas petrolíferas.

As empresas estatais existem na prática para servirem a nomenclatura. Qualquer problema do cidadão resolve-se com contribuição comunitária o (vamos se associar) de boas reminiscências do poder popular. Quem não paga, ou não tem dinheiro, quem o tem são sempre os mesmos, fica assim até desabar, arder, desaparecer. Mas sem dúvida alguma que o cerne da questão é o analfabetismo, e continua-se teimosamente sem investimentos na educação. É tudo para petróleo ver.

Um grupo de cidadãos quer criar uma frente patriótica antipetrolífera e proclama-se: não contando com as anunciadas, mas ignoradas catástrofes da vingança da Natureza, sem água, sem energia eléctrica, muitos carros de luxo, muitos seguranças privados que guardam o medo dos novos-ricos, clínicas para governantes dentro e fora do país. Quanto mais petróleo mais miséria. Estes são os legados da libertação, da revolução. O eclipse da corrupção no discurso vaivém. Os problemas do Povo resolvem-se com petróleo e diamantes. A energia eléctrica soluça, a água convulsa, tudo se entope devido ao excesso do petróleo e diamantes

As obras da nomenclatura são tantas, tantas que não se consegue respirar. É um deserto de nacional. Um reino infestado de geradores eléctricos que quando ligados ultrapassam a poluição do gigante chinês e número impressionante de depósitos de combustível que a qualquer momento numa reacção em cadeia, fará com que os postulados da Física sejam revistos. E depósitos de água nos terraços, nas habitações, e subterrâneos. Nada é real, é tudo virtual.

Gil Gonçalves

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O PRÉDIO (III)4/5/2008

Publicado no Jornal O Observador http://observadormocambicano.blogspot.com/

O PRÉDIO (III)

Quandodepressão económica à vista, o preço do petróleo enlouquece, e todos ficam na loucura colectiva, vê-se que outra guerra é certa.

 

Uma folha de papel A5 entra como vento sem tempestade por baixo da porta. Nela impressa continua a ilusão do devaneio trintenário da deputação do poder auto-adesivo.

Convocatória

São por este meio convocados os moradores do prédio para uma reunião com a comissão de moradores que será realizada amanhã (Sábado) às 9 horas no patamar entre o 3º e 4º andar. A reunião tem como objectivo analisar e resolver os problemas de energia no prédio.

A Comissão

Analisar e resolver os problemas do prédionenhum dos moradores entende de instalações eléctricas, e não foi presente nenhum técnico para prestar esclarecimentos

 

No fim da reunião, o novo-rico comissionado impõe o seu ponto de vista. Que a reparação da energia eléctrica custará 2.200 USD, cada vizinho pagará (parece que foi assim, porque é notório onde há dialogo confuso, há sempre cambalachada) 220 USD.

Os novos-ricos militantes insistem no regresso dos bons velhos tempos marxistas-leninistas, agora também tecendo, corrompendo a teia de Penélope.

Festejam os ganhos extraordinários do petróleo. Exportam-no, importam tudo, agulhas também. Como não interessa, dá muita chatice produzir internamente, importar é fácil, apesar que há a outra chatice da congestão dos portos, como será a seguir? Os preços das importações sobem e esconde-se maldosamente que virá a confrontação interna sem limites dos que morrem à fome por causa do petróleo. E o que se reconstruirá com preços tão elevados? Que interessa depender do petróleo, se não se produz nada internamente? O dinheiro obtido da alta petrolífera esgotar-se-á rapidamente. Até porque serão incentivadas, utilizadas energias alternativas e o petróleo cairá, adormecerá. E como todos querem endinheirar, no petróleo esbracejar, nadar e por causa dele afogar.

Para se libertar da má governação dos homens, o mar inventou as marés. Vazante e depois enchente, onde devolve o que resta da civilização… o lixo humano.

Libertar um Povo é construir-lhe universidades.

Quando um governante manda construir estádios de futebol e depois dá-lhes o pontapé de saída, marca mais um golo na miséria mental, milenar do seu Povo.

A História moderna esconde um facto notável: o consentimento, o apadrinhamento de Estados clonados da prossecução do cerrado nevoeiro medieval, com passaportes sem limites para a inconsciência.

Um país bem organizado tem: palácios, estádios de futebol, um canal de televisão, uma única rádio, um partido único, petróleo e diamantes, escolas de samba, esgotos ao ar livre, toda a gente a vender nas ruas, governantes que anunciam milhões de lucros mas desconhecem-se as despesas, muitas, muitas festas com muitos luxos, sem bibliotecas, sem livros, muitas ruínas, batuque de granadas dia e noite para ninguém dormir, muito lixo, muita população com muita, muita miséria, muita fome. Em suma: um país com um governo da Torre de Pisa.

 

E o novo-rico ressalta o seu estatuto, o mandato militante:

- Se nós fossemos unidos, podíamos ter um tapete nas escadas do prédio, do quinto andar até ao rés-do-chão.

Gil Gonçalves

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O PRÉDIO (II)4/4/2008

Publicado no Jornal O Observador http://observadormocambicano.blogspot.com/

O PRÉDIO (II)

Entupiram as fossas nasais do esgoto, como uma baleia esguichou, marulhou, evacuou o lodo humano oprimido nas galerias tubulares. Deu à costa frontal do prédio. Ninguém se importunou com o habitat anormal, convivência sem regras. O perfume abjecto dita o paradigma da aceitação social, o lazer decisório impõe o retorno medieval, do cavar vala e escoar o fedorento nojo pela rua afora. E obram-se, comemoram-se festejos pelo feito alcançado, devidamente autorizados por quem de direito. A água da infiel estatal servidora abastece a horas incertas. No primeiro andar, torneiras coloniais, esgotadas pelos anos funcionais jorram minando os alicerces prediais, culminando na destruição precoce. Batem-se palmas e sorrisos por tais feitos nunca antes vistos.

 

No quinto andar acomodaram-se portas com bocados de lenha tétrica. Desesperadas, esperam a visita de Edgar Allan Põe. Lúgubres paredes invocam os espíritos antepassados. Repartem-se, aproveitam-se, sobram bocados. Na casa de banho dois buracos fétidos espreitam os necessitados. No chão fissurado que despeja, invade o tecto do quarto andar desfeito, que estóico nas restantes áreas, funda-se, desce, afunda submarinista.

Electricistas com instrumentos sofisticados: um alicate qualquer, na falta algo improvisado, puxam, repuxam cabos. A potência desordenada aumenta, os fusíveis restantes enfraquecem, adoecem sem remédio. Acabou-se, extinguiu-se a iluminação. Depois da reposição, algumas labaredas despertam o terror da erupção do vulcão eléctrico. É a fuga com risada para a plateia, pela gratuitidade da tragédia merecida. 

 

Nas traseiras reforça-se a proeminência do poder. Grande, entre os grandes generais imperiais. Manda partir, evacuar paredes. Nascem intramuros, obliteram-se os escapes aguados, como um rio desviado do seu curso, nascem lagos, lagoas que não trazem coisas boas. Na calada da noite ou do dia a retaguarda predial é óptima, segura para passear, lixo amontoar. O calor é o réu da preguiça e demais acções dos humanos sempre cansados! Eternamente, habitualmente despreocupados! Importunados pelos mosquitos dos pântanos palustres e noctívagos comboios de ratos que activam a tubulação da reserva das cisternas de água suspensas. A ratada viaja à velocidade TGV nos carris PVC. Despertam a tribo bantu, táca, táca, táca, táca, infestam, epidemiam, divertem-se, comem, dançam com a peste negra. Batalham os despojos dos matrimónios semanais, esponsais. Tudo carcomido, como fendido por tremores de terra diários como se fosse zona mais sísmica mundial. Como árvores sem folhas, que são esqueletos, teias de aranha.

 

Juraram! Os prédios não morrerão de ! De verticais serão homenageados horizontais. Tudo começa depois do nascer, e acaba antes de morrer. Que confuso!.. Não sei se a vida convida a morte, ou a morte abandona-a… abrigada no analfabetismo e na mais pura ignorância, destruindo, arrasando o que sobrou da estrutura arquitectónica colonial. Vitoriamos, universalizamos uma imensa pocilga com inenarráveis porcos.

Gil Gonçalves

 

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O PRÉDIO (I)4/3/2008

Publicado no Jornal O Observador http://observadormocambicano.blogspot.com/

O PRÉDIO (I)

A juventude é ávida por álcool, porque não tem acesso ao petróleo.

Somente depois da última árvore derrubada, depois do último animal extinto, e quando perceberem o último rio poluído, sem peixe, O Homem irá ver que dinheiro não se come! (Provérbio Indígena) In Rosane Volpatto caradobrasil.com.br

 

O prédio caiado de branco, higiénico, era dos Brancos. Ocupei-o, ocupamo-lo nas prerrogativas da liberdade. Vida nova nos prédios que conquistámos. Não são mais do colono Pertencem-nos, tudo agora é nosso. meu! teu! Vou gozar bué a minha independência. Viva o socialismo! Viva o poder popular! Arrombei a porta, escrevi na parede à entrada, OCUPADO. Os Brancos deixaram coisas bonitas, são minhas, minhas catitas! Deixaram o que nos roubaram. Colei um biquíni, mini-saia ultracurta, espelhei-me e pirei-me. Vou festejar, passear, tangar, bangar.

 

Não acabam, não acabem os festejos, são os meus desejos. O tempo passou, senti que algojamais voltou. De repente tudo acabou. Chegou o trunfo, triunfo do analfabetismo. Os prédios, o prédio, alagava na vontade soberana o desejo de se autodestruir. A água, a luz, o elevador, não foi terramoto ou ciclone que o danificou. Condutores eléctricos, interruptores, fusíveis, lâmpadas, foram-se das escadas para as mãos habituadas, suadas nestas andanças dos canibais ecléticos, eléctricos. No motor do elevador alojou-se morador, contente com casinha ao dispor. A cagar num papel, amontoando-o no convés da rua. A casinhota de serviço milimétrica forçada a acolher cinco gloriosos inquilinos inesperados, albergados. Novos donos intemporais do lixo que trespassam, iluminam a paisagem devastada do inumerável residual.

 

Degraus das escadas partidas, pelo arrastar das partidárias botijas de gás. No terraço alega-se construir um paço tradicional com arquitectura perfeitamente natural. Madeira, tábuas, chapas metálicas devaneadas por ao deus-dará, ou onde aprovar. As saídas das águas temporais ofuscadas, obrigadas decidem outro rumo: a catadupa no vizinho de baixo, e no seguinte. O do paço confrontado, desalmadamente invoca: «A culpa é da Natureza, não lhe mandei chover»

 

No quinto andar a meio da varanda plantada, airosa, orgulhosa desenvolve tronco obstinada árvore. O crescimento alonga fenda, buraco desnivelado A ramagem optimiza um estendal de roupa. Tiraram a vontade à água para subir, e a electricidade dificulta o luzir. Recomeça a escravidão da intensiva exploração infantil. As crianças alinham confrontadas com pelotão de fuzilamento. Carregar braçal, animal, o liquido térreo poderoso, oneroso nos seus corpos que desviará a tenra coluna vertebral. Novos tempos, novas arquitecturas. Pedantes inquilinos alcandoram-se. Recém chegados, promovem terramotos que desabam as paredes internas. Alternam estruturas, partir, desfazer, barulhar. O poder das cédulas metálicas consolida-se. Poderoso, majestoso senhorial encafua o gerador na base que era do elevador. Perdido na lei do seu quintal encontrará iluminado o seu oásis patusco. 

Gil Gonçalves

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PALEODEMOCRACIA4/2/2008

CRÓNICAS DO REINO DE ABDERA, ALGURES NO GOLFO DA GUINÉ

Inicialmente publicado em http://pululu.blogspot.com

 

PALEODEMOCRACIA

 

 

Paleodemocracia é a ciência que estuda os fósseis democráticos.

 

Aconteceu poucos milhões de anos atrás. Um vulto destaca-se das sombras hostis. É um quadrúpede que se ergue. Admira-se, olha-se, sente-se bípede.

Rodeia-se, espraia os olhos, muita coisa. Surgem-lhe os primeiros fulgores de cobiça. Sente-se dominador, bate os punhos com força no peito e celebriza o grito de Tarzan. Alguns dinossauros ainda não extintos paralisam as suas actividades. Intrigam-se nas memórias genéticas pelo retorno do Homo Erectus. Lembram-se do que aconteceu antes. Confraternizam, solidarizam-se, vão para outras paragens porque a paz do pirão foi-se.

 

Alguns fósseis Paleodemocratas descobertos do Homo Habilis revelam o talento inato para disputas democráticas. É que nos locais de reunião havia muitos ossos, que sem dúvida provam a utilização sofisticada destes artefactos como meio de pacificação dos espíritos discordantes, do triunfo da minoria e a subjugação da maioria.  

 

O Homo Sapiens (que nome tão estranho, inadequado) recebeu a centelha do raciocínio, do espírito não. As outras espécies esforçavam-se por conviver com tal personagem. Debalde procuraram locais de refúgio longínquos, e depressa verificaram que a saída era o precipício dos suicidas lémures. Apesar dos vigias que alertavam «cuidem-se, vem o Homo Destruere!!!» não evitaram a exterminação.

 

Como Homo Oeconomicus sublimou-se. Menos árvores, mais prédios. A evolução humana é o rápido processo de destruição

 

Entretanto na margem predial, os contratados Chineses estendem peixinhos no horizontal fio-de-prumo, e o sol ávido seca-os. Duas senhoras idosas observam-nos e lamentam o regresso do tempo perdido.

Contrariando a Teoria da Origem das Espécies por Via de Selecção Natural de Darwin, um fóssil vivo recentemente descoberto, tal celacanto, desafia a imaginação dos Paleodemocratas. O fóssil vivo Australopithecus Mugabis Zimbabuensis que desconseguiu humanizar-se. Um cientista resumiu, apressou-se a comunicar o seu trabalho no Congresso dos Paleodemocratas:

- Liberta-se um escravo, ele liberta-se? Não! Sem formação, o escravo liberto prossegue na servidão. Assim… a África Negra permanecerá eternamente na escravidão, porque não houve libertação. O macaco é livre, o escravo não! A melhor democracia é aquela de fingir. Ainda tem muitas foices, chicotes, martelos e catanas, para ceifar, chicotear, martelar e catanar os verdadeiros democratas.

 

Gil Gonçalves

 

 

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CLÍNICA DOS PETRÓLEOS E CORPO DIPLOMÁTICO4/1/2008

Inicialmente publicado em http://malambas.blogspot.com

CLÍNICA DOS PETRÓLEOS E CORPO DIPLOMÁTICO

 

A política não é apenas para ser feita pelos políticos. Gilberto Freyre.

 

A libertação da escravidão é uma ilusão.

 

As madeiras de ébano estão estatuadas, estratificadas, no passeio do prédio passeadas. No seu tabuleiro, a velha Teresa retoca as pinturas dos rebuçados, bolachas, pastilhas elásticas, cigarros. Reajusta o gelo na caixa térmica para que as gasosas magnetizem a clientela. No centro do tabuleiro um bocado de papelão previne: NÃO ACEITO KILAPIS! A Marta e a Emília tentam kinguilar dólares. Passa uma ambulância com o dístico: CLÍNICA DOS PETRÓLEOS E CORPO DIPLOMÁTICO. A velha Teresa espera que o efeito dopler termine e inicia a conversa habitual, interminável.

- Até agora nunca consegui entender porque é que vi a maldade sempre triunfar. E a bondade limitar-se apenas, creio que é isso, a uma mera invenção, para nos tornar submissas, obedientes e temerosas.

A Marta está atenta a um carro que parou. Parece que quer trocar. Faz-lhe sinal com a mão. O outro renuncia. Engata-se na dica da velha Teresa.

- A abolição da escravatura foi mal feita. A escravatura e o colonialismo ainda não acabaram.

Um esfomeado da democracia incipiente colecciona qualquer coisa nos caixotes do lixo. A velha Teresa usa o seu melhor tom crítico.

- A independência deles veio para andarmos à procura da nossa liberdade nos caixotes do lixo. O que resta da nossa liberdade… está !

A Emília estava com cara de taxo. As duas olharam-na interrogativas, como querendo insinuar o anormal de mulher estar calada. A Emília sorriu um pouco, e concordou:

- É isso manas! Somos uma nação de escravas, dirigidas por escravocratas!

A Emília escuda-se na cara de contra-anúncio. A velha Teresa intriga-se:

- É o quê, mana Emília!?

- Porra! Esses gajos são muito feiticeiros! Primeiro enfeitiçaram-me 2.500 dólares falsos, depois mais duzentos… É !.. vou na igreja, não se pode estar na rua. Conseguem roubar o dinheiro que temos na carteira… é como se tivessem um aspirador.

A mana Marta tomou defesas, um anti-feitiço.

- Eu estou a pôr um bocado de carvão e jindungo na minha carteira, para não me aspirarem o meu dinheiro.

A velha Teresa não deixa escapar nada.

- Olhem… olhem… não é a Génia?

A Génia está estacionada, disfarçada entre automóveis. Esfrega, jubila a racha num pretendente. Fazem-se festinhas, cochichos, parece que mais tarde vai fazer horas extras. A velha Teresa chateia-se:

- Então, e o brasileiro? Parece que gosta muito dela. Está sempre a trazer-lhe coisas.

A Marta antecipa-se à Emília, poucopara esclarecer. 

- Oh! Qualquer um lhes serve.

A velha Teresa retoma o rumo dos habituais impropérios.

- Porra! É por isso que as pixas e mais essa merda toda me metem nojo. Ah… é por isso que nunca mais quis homem.

- Eu também não. Desde que o filho da puta do meu marido me deu chapadas na cara, nunca mais quis homem. Assim estou muito bem. Homens, que vão todos para a puta que os pariu! – Sentenciou a Marta.

Na rádio do poder ouve-se um governante alardear os seus feitos. Publicita a inauguração de uma vulgar estrada, que se Deus quiser aguentará uns meses. Depois reconstrói-se e as comissões também. «E o que os colonos não conseguiram fazer em cem anos, nós acabámos de o fazer agora»

- É o ministro militante, triunfante da ainda vanguarda da classe operária e camponesa. – Gozou a Marta.

- Continuam a roubar-nos as terras, os terrenosaté fazem dos passeios armazéns de contentores, e agora parece que são os prédios nos tiraram fotografia. – Alertou a velha Teresa

- A nossa África Negra é o paraíso dos aventureiros e dos governantes sem escrúpulos. – Lembrou a Emília.

A Marta e a Emília olham fixamente, longamente para a velha Teresa que se assusta.

- É o quê manas? Não gosto nada que me olhem assim. Até parece que cheiro a catinga, ou tenho peçonha.

- Depois do arrombo que os feiticeiros nos deram, estamos a ficar aflitas com dinheiro. Pois é… como é… o dinheiro que te emprestámos, nada? A tua filha de Portugal… ainda? – Interrogou a mana Emília.

- É manas, estou bem fodida! A minha filha telefonou-me, disse-me que agora não dá, que comprou brutas roupas… é… vai-me enviar rebuçados, e que depois me enviará o dinheiro. – Justificou a velha Teresa.

Dois seguranças aguentam duas portentosas, rebentos de madeiras de ébano com dez anos de idade. A lábia delas é convincente:

- Vá … arriámos para dez dólares!

- É , não chateiem! Mas vocês não têm família? Não têm vergonha, ainda tão crianças? Deviam estar numa escola ou numa creche! – Aconselhou um segurança.

- Ah… seus burros, parvalhões! – Insultou a que parecia a chefe.

E foram-se frias com as rachinhas quentinhas na noite acalorada. Se não conseguirem rachador, não haverá comida, gasosa, e roupinhas.

A velha Teresa abana a cabeça descontente. Pisa fundo no acelerador da inconsciência nacional.

- Ainda agora nasceram, e a sofrer assim? … Meu Deus!

- Há muitos pedófilos entre nós nacionaissão uma das nossas instituições milenares. – Disse a Marta.

- Esta nossa pedofilia é denunciada quando feita por estrangeiros! – Exclamou a Emília.

O homem conduz o seu carro agitadamente. Vê-se que está com muita pressa. pode ser por causa de um negócio. um mendigo, um esfomeado à frente do carro a pedir esmola. Olha para o relógio e que está atrasado. Se perder o negócio perderá muito dinheiro. Acelera e passa por cima do faminto, deixando-o esmagado, abandonado na via.

A quinze paços à esquerda do prédio está uma criança na porta do supermercado. O segurança enxota-a. Como fazem as moscas, a criança retorna. O segurança afugenta-a e vai e volta, vai e volta. O segurança interroga-a com a cabeça. A resposta é sempre a mesma:

- Tenho fome! Quero pão!

O segurança está cansado, não aguenta mais tanto rodopiar. Grita-lhe:

- Queres pão!? Vem !

O desgraçadinho acredita que conseguiu. Aproxima-se confiante e leva duas boas cacetadas nas costas. O segurança repete a pergunta:

- Queres mais pão!?

Um pouco mais à direita um homem que decerto é louco intenta arrancar uma terna árvore. A velha Teresa perguntam-lhe:

- Oiça… faz isso porquê?

- Vou construir aqui um casino. As árvores não me dão dinheiro.

 

Para chatear ainda mais, surge vendaval. As árvores agitam-se, querem roçar o chão. O lixo voa por todo o lado. Começam a cair os primeiros pingos robustos. Vai ser uma boa chuvada. A velha Teresa aflige-se, refugia-se com a mercadoria dentro do prédio.

- Merda para esta chuva! É quase assim todos os dias. Hoje não vou vender quase nada outra vez.

Eis que surgem novos-ricos. Os auto-eleitos presidente e vice-presidente do prédio. O presidente quer passar, mas o tabuleiro da velha Teresa não deixa. Então o presidente ataca:

- disse para acabarem com esta pouca-vergonha. Vão vender para outro lado!

A mana Emília fala bem português. A Marta e a velha Teresa também. A Emília desfere um contra-ataque.

- Hum!.. mas você comprou o apartamento ou o prédio?

A seguir a comitiva está presente a esposa do presidente. A entrada tem uma pocinha de água.

- Mas que chatice, que javardice. Vou molhar os meus sapatos e o seu delicado conteúdo.

- Porque é que não fazes como nós? Anda de chinelos! – Solucionou a velha Teresa.

- Eu!?.. Era o que me faltava! usarei chinelos quando for pobre como vocês!

As madeiras de ébano reprovam-na agitando as cabeças. A velha Teresa é a primeira a recobrar-se do desânimo:

- Dantes eram os brancos, agora são os negros que nos escravizam. Ai!.. manas… afinal lutámos pela nossa independência para quê? É tudo deles! Viva a nossa independência de escravas! Filhos da puta! Puta que os pariu!

Falta o mulato Eros, que desce as escadas triunfal. Com dezoito anos tem duas filhas de duas adolescentes. Vem com uma negrinha, muito jovenzinha que intoxica as narinas com o cheiro de perfume muito barato. pode ser por causa da falta de água. Banhou-se com perfume para esconder o cheiro da catinga. E a Emília resume a vigilância, a contagem do mulherengo:

- Desde o meio da manhã até agora, esse mulato subiu e desceu com seis negras. É um grande fodilhão. O gajo toma remédios.

 

E os congressos e os debates extermináveis prosseguem-se. Desdiz-se sempre a mesma coisa. Nada há de novo. Excepto o reino que se afunda, na miséria, na fome. E o dinheiro petrolífero, diamantífero abunda, abundante. Está o dinheiro nos bancos das contas pessoais, muito impessoais, muito secretas.

Tudo está como no Livro do Pragador.

Gil Gonçalves

 

 

 

 

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O PRÉDIO DA INJUSTIÇA DESABOU3/29/2008

O PRÉDIO DA INJUSTIÇA DESABOU

Antes de vinte e quatro horas passadas e depois da visita do Procurador-geral da república, prédio da DNIC, Direcção Nacional da Investigação Criminal, desaba em Luanda, por volta das quatro da manhã.

Os prédios mal conservados, abandonados, fatalmente acabam como as ditaduras, em ruínas inexoráveis. Quem governa mal, supera o lodaçal. Os maus filhos são como os maus governos. Quando os esperamos numa desdita, dizem-nos sarcásticos que gastaram o dinheiro em banquetes.

tínhamos alertado no nosso trabalho anterior, O PRÉDIO, publicado nO Observador http://observadormocambicano.blogspot.com/  sobre mais esta tragédia que acaba de acontecer. Mas, a resposta dos governantes a estes preceitos é invariável. «São discursos incendiários, anti-patrióticos» ou, «não jogo nessa equipa.» A demagogia é a arma atómica da política.

Dois horas depois chegam os primeiros socorros. Fecham-se todas as ruas de acesso. Cem bombeiros, polícia de intervenção rápida, e outros órgãos policiais e militares socorrem e protegem a área. Os meios são exíguos, e para este tipo de trabalho inexistentes. Fazem-se apelos às empresas de construção civil que acabam por apoiar com meios técnicos.

O barulho das sirenes é constante. As das ambulâncias que transportam os feridos, à medida que são resgatados, misturam-se com as viaturas de alto luxo todo o terreno da nomenclatura que visitam o local, que pela descrição lembra o Iraque. Era um prédio colonial com mais de trinta anos, comentam os da nomenclatura. Quantos prédios existem que tem menos de trinta anos?

Ás cinco da manhã circulava informação que a cidadela desportiva foi reduzida a , devido a uma bomba de grande potência.

Um elemento da Dnic confidenciou: «Os chineses desviaram o circuito subterrâneo das águas da cidadela desportiva que afundou os alicerces do nosso edifício, e quem mandou fazer isto

Três prédios anexos correm risco de desabamento. População vai ser evacuada, para onde!? Os especuladores imobiliários esfregam-se de contentamento, porque centenas de prédios estão nestas condições. Portanto é fácil correr com os moradores, erguer prédios novos e facturar.

Entretanto foram resgatadas oitenta e oito vítimas com ferimentos. Os mais graves foram para o Hospital Militar. A situação é crítica na cela das senhoras. Estima-se dez detidas e uma delas, imaginem, com uma criança de tenra idade. Um cão polícia conseguiu entregar-lhes um telemóvel, o que lhes permite comunicarem com o exterior. Claro que apresentam sintomas de pânico mas, conseguiram chegar-lhes água para beberem. Será que resistirão até à libertação? Alguns detidos fugiram. Serão necessários pelo menos dois dias de trabalho de máquinas. O prédio de sete andares começou a ruir por volta da uma da manhã. Há mortos mas, até agora não foram anunciados. O Procurador-geral foi informado do desabamento à vista.

Nove horas depois chegaram máquinas de porte mais considerável. A ordem dos engenheiros está proibida de tecer considerações técnicas. Dez presos fugiram.

Vamos perecer todos neste campo de concentração. Os prédios estão moribundos Quando um prédio desaba assim, anuncia o desabamento do sistema político ortodoxo, do para trás é o caminho. E todos os prédios que restam implodirão com a ajuda preciosa dos chineses, brasileiros e portugueses, que destroem o que resta da cidade. Depois desta tempestade outras virão.

O PML – Partido Marxista-leninista não chamará ninguém à responsabilidade, ninguém será julgado, preso, nem demitido.

Informação com base na Rádio Ecclésia, e Lac-Luanda Antena Comercial.

Gil Gonçalves

 

 

 

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O DILÚVIO DE GILGAMESH3/29/2008

CRÓNICAS DO REINO DE ABDERA, ALGURES NO GOLFO DA GUINÉ

A EPOPEIA DE GILGAMESH

 

A minha sobrinha sentada, estava com a cabeça e as mãos encerradas nas coxas. O segundo filho de apenas dois anos de idade, encostava-se a ela procurando os afagos cansados, inexistentes. A criança respirava a miséria constitucional permitida do paludismo e da fome sempre épicos. Sabia, quem não sabe o que se passa? Deixei que ela apresentasse os seus lamentos.

 - Sambita… esses olhos esfomeados, a fome persegue-te…

- Sim… a chuva arrastou a minha casa… arrastou tudo… fiquei invisível, sem nada.

- E não procuraste o auxílio do governo?

- Para quê? Se fosse filha de general ou outro que tal.

- E o teu marido?

- Ohtinhas razão, sabem fazer filhos, abandonou-me, foi para casa de não sei onde… despachei-o para o espaçonão quero mais nada com homens.

- Sim, estou a ver. Sambita, insisto, devias ter aproveitado a Arca de Noé ministerial, governamental.

- nãoquem acredite nessas coisas. Essa Arca, copiaram-na da epopeia de Gilgamesh. Esta gente é como o dilúviosempre a arrasar, a arrastar.

Fui nas gavetas da minha esposa, roubei-lhe alguns biquínis e soutiens e outras roupas que achei desnecessárias. Juntei tudo num saco de plástico grande.

- Sambita, toma… da pouca comida que temos ainda chega para ti e para a criança.

As faces dela e da criança pareciam uma filial de Darfur. Comeram até se notar que os olhos irradiavam aquela satisfação conhecida e contudo desconhecida da saciedade. Se os políticos passassem fome, decerto sentiriam na alma os anseios dos esfomeados. Mas, politico é para discursar, falar muito até enjoar. Politico é o segredo não divulgado da clonagem milenar.

- Tio, preciso de dinheiro… a criança está com dois por campo… o paludismo mata.

- Então, ninguém da família te ajuda?

- Tio, não existe família, não existe nada. petróleo, diamantes e muitas amantes.

- É !.. tenho duzentos dólares… meu Deus… dou-te cem… sabes, tinha este dinheiro guardado para no caso de ir parar doente a um hospital, porque sem dinheiro morremos na porta deste inferno independente rejuvenescido.

Entreguei-lhe o dinheiro e se abraçámos. Os abraços dos miseráveis, a Teoria da Relatividade, e a Teoria Quântica não os conseguem relativizar nem quantificar.

A tarde estava meia, o sol abrasava-a, o mar recebia o excesso de temperatura da terra. Mais nuvens de Gilgamesh atestavam os depósitos com água. Mais torrentes diluvianas se preparavam para assolarem os miseráveis. A miséria e a fome perseguem os governados, os governantes não. A fome é uma dádiva divina. As sagradas escrituras dizem que para atingir o reino dos céus é necessário muito sofrimento, muita fome. Os ricos e poderosos estão eternamente protegidos por um Deus invisível, visível, compreensível, incompreensível.

Gil Gonçalves

 

  

 

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600 + 3.0003/29/2008

Inicialmente publicado em http://pululu.blogspot.com/

600 + 3.000

Desolando arrasaremos por toda a parte, se a tanto o Zimbabué, nos der mais alento e arte.

Eis seiscentos autocarros para entrega às empresas de transportes da cidade. E mais licenciamento de três mil táxis. ninguém consegue movimentar-se de automóvel, nãomais espaço, a não ser no aéreo. É preciso é comprar, porquesempre comissões para engavetar. Os automóveis conflituam o trânsito e as nossas mentes. Mas, ninguém tem coragem de andar, no rodar da bicicleta salutar. automóvel para o ambiente envenenar. Mas, como sempre uma mente genial descobre como convencer o espaço. É alargar as estradas existentes. Então partem-se casas, com generais que comandam, por isso escolhem a solução mais simplesdestruir o inimigo. Este reino é obra de especuladores imobiliários. Contratam-se chineses que copiam, clonam equipamentos, máquinastudo. Isso não revela sabedoria. As obras efectuam-se por pardais. Onde chegam nãoplanta que sobreviva. Quando um governo parte casas, e atira as pessoas para a rua como acusadas de feitiçaria, a democracia cai e não se levanta, porque é petrolífera. É a lei da democracia da selvajaria petrolífera, onde nãoleis que se cumpram.

 

Não investir na população, é chamar, apelar à Revolução Francesa. Com muito dinheiro do petróleo, sem lei e sem ordem chegam estrangeiros, aventureiros e exclamam: «este país é um paraíso para investimentos»

Crescimento económico significa crescimento da poluição. Não é necessária uma guerra, um cataclismo para destruir a Terra. A poluição da China e EUA, chega e sobra, porque a História é o movimento dos idiotas que aspiram ao poder. Por isso o povo quando fecha ou tapa os ouvidos, é porque atingiu o último degrau da degradação moral e social. A África não está no neocolonialismo, está no anarquismo.

 

governantes que afirmam categoricamente que o povo não presta. Fico na dúvida: serão os governantes ou o povo que não presta?  

Esta cidade é a mais poluída do mundo, com gigantescas, dantescas fábricas nocturnas, onde toda a noite, muito próximo, portugueses fazem barulho infernal nas obras. Não se consegue dormir. Aqui não cumprem leis, as cumprem em Portugal. A democracia é valida nos países de origem. Fora, nãoleis. São bons alunos dos americanos, semeiam desprezo, colhem ódio e terror. Porque a melhor divisão da riqueza é o saque. Poucos governam para construírem, muitos governam para destruírem.

 

Tudo e todos no desleixo, na não solidariedade humana, no regresso à barbárie de um povo, de uma nação. Quando os governantes não investem na literatura, é porque não sabem ler. Quando se envia vária correspondência a governantes, e não respondem, é porque são analfabetos.

E os paternalistas fazem-se presentes, com sorrisos como presentes, mas ausentes confundem, defendem não se sabe o quê quando afirmam: «é um povo independente, feliz» e acenam com a constante hipocrisia que a China é a mais rápida economia crescente no mundo… e o maior mercado mundial de poluição. Assim, a China será o maior exportador mundial de miséria, de doenças, de fome. E importar-se-ão mais centenas de autocarros e táxis, e muitos mais automóveis para petróleo ver.

Gil Gonçalves

 

 

 

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ARMAR, DESARMAR E REARMAR3/21/2008

Muitos generais desarmam a pouca democracia. Serão válidas eleições com generais no poder? Os reis absolutos perseveram, não acabam, é a inflação reinante.

vários anos efectuou-se um desarmamento porta a porta, com invasão de propriedade pela polícia. Revistavam ilegalmente o interior das habitações na prerrogativa concedida pelo marxismo-leninismo. Aproveitavam, surripiavam objectos não similares com armas. Este cenário natural será agora revivido, continuado, aproveitado, para obrigarem os inquilinos a diminuírem a joalharia como bem comum. Para ultrapassarem os seus vencimentos, porque agora têm direito aos 51% do capital social das empresas, e vão confundir que a população é obrigada a contribuir com 51%. De facto ultrapassam, vão muito mais além dos ensinamentos de Robert Mugabe que dirige as opressões da África sem rumo, sem futuro.

 

Isto não é uma cidade, é uma grande cilada, amontoada de habitações sem habilitações. Enquanto existirem miséria e fome, o desarmamento persistirá. Com uma única rádio e televisão, é fraude eleitoral à vista desarmada, antecipada. Como o desarmamento de inúmeras ONGs na luta contra a SIDA, e a SIDA não diminui, não desarma, rearma-se. E a mesma incompetência labuta sempiterna, na impossibilidade temporal para vasculhar seis milhões na cidade, que acabará por receber toda a população das restantes províncias. Enquanto a fome perdurar, o tráfico de armas vai continuar.

 

Ultima ratio regum, último argumento dos reis. Foi esta divisa que Luís XIV (1638- 1715) mandou gravar nos seus canhões. Os que governam não estão isentos do exagero das forças de segurança ao seu dispor. Um mandatário quando se desloca na cidade, acompanha-o um exército de armas em cada esquina. É o reviver do Terror. Qualquer um reza para que as armas não cantem nenhum requiem, porque não há a quem apelar,

 

No bairro Quicolo o desarmamento iniciou. Uma quadrilha armada anda de porta em porta. Arromba-as se houver resistência e os quadrilheiros desarmam a população exigindo dinheiro, mas valorizando as botijas de gás que agora são ouro liquefeito.

 

Para que o desarmamento funcione é necessário atentar nestes postulados: A falsa religião e a ditadura algemam a mente. Os ditadores não deixam os democratas descansarem. Gritos da morte na noite escura, mais um esfomeado que não foi desarmado. Na democracia incipiente até os cães são hipócritas. Nesta sociedade, as prisões estão sempre com a lotação esgotada. Vivemos sempre no receio, que a prisão da noite nos bata à porta. O melhor partido político é a fome, e esta é a melhor conselheira. Sempre mais adianteum poço, mais um fosso de petróleo. As estruturas do poder corrompem-se de ferrugem, cairão por falta de manutenção. Os incompetentes eternizam-se no poder, mas não são eternos. A noite termina, a manhã começa, o dia do poder não acaba.

As nossas bibliotecas são alcoólicas, estão apetrechadas com os piores mestres da vinicultura mundial.

Governantes afadigados no desarmamento que lembram os rios a transbordarem, alagarem, arrasarem, e lacónicos dizem: «a situação está sob controlo». Notável, é o não até agora desarmamento de mais de trinta anos de poder.

Gil Gonçalves

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A JASMIM DA NOITE E POCAHONTAS3/19/2008

A JASMIM DA NOITE E POCAHONTAS

Até o surdo e faminto consegue ouvir o barulho da fome.

 

Acompanhei a minha amiga Pocahontas a Londres

Fomos recebidas pelo rei Jaime I e Ana da Dinamarca

Os ingleses olhavam-nos comocomo jasmins exóticos

Entrámos na corte erigidas pela melodia, heroína expressiva

Melódica da música barroca

À nossa dignidade principesca passagem, a nobreza desconjuntava-se

Nas maneiristas vénias do palácio real de. Whitehall

Acabámos o percurso do chão recto axadrezado

Ajoelhamo-nos majestosamente aos pés dos reis do mundo

Depois a minha amiga Pocahontas segredou-me:

O amor não nos nasce, está dentro de nós, porque ambas sabemos perdoar

Éramos, era, mais uma princesa arrebatada ao Novo Mundo

Vida nova apresentada na corte da lisonja

Novo Mundo, novas riquezas

As proezas dos heróis elisabetanos, vitorianos que serão versificados Imortalizados. Os feitos dos nossos heróis permanecerão ridicularizados

Pocahontas faleceu dois anos depois, com vinte e dois

Deixou de fazer orações e vénias à pureza das árvores

E águias que amava. Vitima da impureza humana

Tudo! Toda a poesia da vida Powhatan na Virgínia esmoreceu

 

A saudade dói, é uma ferida, ao lembrar o valor da amizade de uma amiga

Um caçador de escravos privou-a da liberdade com apenas oito anos

Obrigaram-na a não apanhar mais mangas, abacaxis, bananas

As frutas dos selvagens

Perdeu para sempre o interior, os segredos do feitiço da sua Mãe

A selva africana. Embarcou órfã na mãe negreira

Oh! Não me façam mal! Prometo nunca mais fugir dos Brancos

Não subirei mais às costas das palmeiras. Não mais me refrescarei

Saciarei, na água dos cocos. Porque não mais os verei, comerei

Os meus pais, irmãos, amigas recordarei. As marés nas areias não abraçarei

A manhã está tão cercada, sombreada irreal

Desnudou-se para me saudar. Vejo a proa do navio negreiro

Que me há-de levar, a deslizar. Não há, não vejo, não vem ninguém

Para me apoiar, ajudar a salvar

A margem afasta-se, acho que me envia um sorriso

estamos longe. Não sabia que o mar era assim grande

Tão imenso. Ainda bem que o navio negreiro não tem medo dele

Parecem tão amigos. Deve ter muitas mãos que o seguram

Senão afundava-se. Sinto medo desta grandeza e desato a chorar

O traficante de escravos grita-me. A sua voz é tão potente

Que o oceano treme. «Ó especiaria, recolhe-te no cubículo

Gravou na memória os sulcos da proa negreira que rompia avidamente

As correntes marítimas. As vagas revoltadas acompanhavam a pressa

Da chegada sem destino. De tão longe conhecida

Aportou em Boston, um Novo Mundo desconhecido

Alguns dos modernos navios negreiros que refazem a rota

Antes africanizada, juram com pavor

Que viram um navio fantasma, o Wheatley voador

Um comerciante rico comprou-a, ofertou-a como criada para a sua esposa

O senhor dos escravos nunca poderia saber

Que importou, comprou uma poetisa, um condor

As plantações das ilusões escravizam-nos, como multidões

A senhora deu-lhe a estudar geografia, história, e latim. Se todos estudassem…

Aos treze anos demonstrou afamada poesia

Com vinte anos na Inglaterra publicou-a

Exótica africana com escala no Novo Mundo

Phillis Wheatley acabou na lei da selva. Trinta e um anos de fervor cristianizado

Longe do calor silencioso, da brisa acariciante, selvagem terna

Dos rios engolidos pelos vales da poesia negra. Apagada, desconhecida

Viva no seu coração negro, conhecida nos seus pensamentos

De muito claros movimentos

 

O quisling do Ruanda uniu-nos

Quando abracei a minha querida amiga Tatiana Rusesabagina

Resta sempre a lembrança da Ocidental matança

Que as guerras dos negros a eles pertencem

Tem o direito ancestral adquirido de se matarem como bem entenderem

É a guerra deles, é entre eles. Que se matem, que óptimo!

Exterminarem-se! Quantos mais melhor porque incomodam muito

São desvios da civilização, convertidos à força, à forca do cristianismo

Como sempre os Brancos fugiram

Deixaram, abandonaram nas ruas feitas de

Que não se comoviam perante o necrotério

Cemitério ao ar livre, improvisados

Massacrados, esquartejados, assim ficaram os corpos, e os seus restos

Abandonados. Desprotegidos, entregues ao sol que no solo os requeimava

Decompunha-os. Parecia tudo tão irreal, como sementes lançadas à terra

Sem estar lavrada. Agricultores loucos que plantam cadáveres

E aguardam que nasçam plantas para renovar, continuar a matar

Estimular o ódio para que sirva de pretexto ao genocídio

E depois apelidá-lo de Estados Bárbaros

Antes eram as cruzadas para libertar Jerusalém

Agora são para libertar Negros, e todos os dias

Cruzadas negras, matanças de pagãos

Cadáveres espalhados, habituados porque perderam

A importância, ganharam o desprezo da abundância

A África Negra é um Ruanda diário

Os campeões da democracia são perenes na convivência

Conveniência, apoiam as ditaduras amigas que garantem a sua sobrevivência

É como a literatura militante, defende o passado

Obscurece o presente, elimina o futuro

Somos nómadas, passamos o destempero a fugir dos tiros

E das catanas

Somos alimento para chacais, hienas, e abutres

E os partidos políticos partem-se na mama, da dinheirama

muitos brilhos, mas os sonhos permanecem escuros, obscuros

 

E de glória me glorifiquei quando a Aretha santifiquei

E no seu halo me cantou. Espiritualizou o reino

Da Rainha da minha alma. Não canta para nós

Encanta Deus

Ela transferiu-me a dimensão da Paixão do esconderijo evangélico

Quando enfrentamos problemas, redobremos

Cantemos, cantemos

Os governantes não correspondem aos povos

Queremos uma resposta, não duvidamos da aposta

Na intolerância da fome. Governar é esfomear

E os espirituais são uma Aretha de alerta

As vozes tão celestiais, tão, tãoespiritualmente Negras

Deus ofereceu a distinção negra à melodiosa Negra

Com voz tão imortalizada, tão celeste

Se essa voz é o Céu, quero ir para

dois Céus: um do Senhor, outro da Aretha

Gosto de ambos

Aretha segredou-me o porquê do sorrir, do estender do seu dedo:

«Indico o bom caminho da Redenção. um Deus

No Caminho do abrir um sorriso no meu dedo»

Embeveci-me, acho que me clarifiquei muito bem:

«Aretha! É fácil apontar para a degradação moral e social

Mas o nosso olhar rebaixa-se perante quem governa tão mal»

Experimentámos um barco pacífico a remos e remámos

No lago de águas remadas, acalmadas, aclamadas

E o Senhor evangelizou as águas angélicas. Pregou aos jasmins

E as águas muito suavemente agitaram-se

Intensamente penetradas, perfumadas. E revelaram-se

E possuíram todo o vivente. E todos rejubilaram 

Deus existe sim senhor! Revelou-se

Aretha Franklin, encomenda do hino da festa especial de Deus

O Mestre das Estátuas deu-lhe som e tom, esculturou-a Universal

Gil Gonçalves. In excerto, A Epopeia da Jasmim da Noite, do autor

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O QUE VEJO DA MINHA JANELA3/18/2008

O QUE VEJO DA MINHA JANELA

Oh Soraya! (Estrela da Manhã).

Vejo o sobrevivente, subserviente esverdear das árvores resistentes aos troncos das ditaduras humanas, desumanas. Tranquilizo-me porque reentro no verde-claro do meu plantio. Muitas coisas paradas na rua com rodas, que barulham e fumegam, inventos para beneficiar a felicidade das sociedades de consumo. O que resta de onze andares… dum vasto prédio colonial, açoitado pelos baldes de líquidos purulentos lançados a esmo para o esgoto da rua da liberdade. A meio da noite costuma escurecer pela fugaz energia eléctrica revolucionária. A invasão habitual das pessoas, das mulheres, parece que as suas cabeças foram feitas para carregarem coisas. São apenas um apêndice vulgar, não foi feito para pensar. Há sempre nesta rua impropérios que conduzem a treinos de pugilato. E de repente surgem muitos bancos, é lavagem de dinheiro garantida

Horror! Dia e noite trovejam as motos de escape livre, e a música do batuque moderno estoira granadas. Difícil é acontecer um momento de paz, de silêncio. São os assassinos do quotidiano que passeiam decretados, com o decreto dos sem lei. E o trânsito desordenado da nomenclatura, batido pelas uivantes motos da polícia transitada. São náufragos do petróleo. Muito petróleo, muita miséria. Estas ruas são imensos navios negreiros encalhados. São como aves engaioladas na ditadura. É necessária uma janela aberta para sentir o vento da liberdade das andorinhas. Elas voam baixo a grande velocidade, parece que vão colidir-me, mas não, apenas saúdam. O verde plantado e o voo irradiado das andorinhas, cantam a íngreme caminhada do não solúvel.

O casamento delas (andorinhas) é indissolúvel e somente a morte pode desfazê-lo. São dotadas da mais alta aptidão para o vôo e passam grande parte de sua vida pelo ar. Comem, bebem e banham-se voando e, ainda no próprio vôo, alimentam os filhos que se iniciam na arte de voar, mas que ainda não lograram a prática indispensável de caçar. Rui Barbosa escreveu uma página inesquecível sobre estas sensacionais criaturinhas, Axel Munthe admitiu que nãopoesia mais emocionante que o rítmico bater de asas de uma ave no alto dos céus, Humberto de Campos diz que os pássaros são a miúda biblioteca de Deus.

In Rosane Volpatto caradobrasil.com.br

 

As meninas crescidas na aleivosia passeiam para a escola esquecendo-se da fome. As que moram longe levantam-se às quatro, cinco matinais. O trânsito demente está tal e qual como a cabeça dos governantesingovernável. Quando um reino não tem estradas, viaja-se ante . E no regresso, à noite, espera-as a violação sexual da doentia vegetação etílica humana. A bebida extrema a sabedoria. É por isso que os bêbados são sábios.

Sem bibliotecas, sem livros, sem Internet, sem professores, escola é passatempo. Para namorar e passar modismos. Saem de bata, depois encostam-se num automóvel, tiram a microsaia e estão na aptidão do levantar a caça. O comportamento infantil e juvenil é o espelho dos adultos. Vida de mulher, ainda é fabricar filhos e armazená-los. Podemos publicitá-las: Contribuam para o engrandecimento da nação. Façam muitos filhos, quem sabe, algum chegará a presidente, ministro, deputado. Não sei de que lado a bondade está. Ela e a maldade deram-se as mãos. Agora quem vive feliz, é porque fez alguém ficar infeliz.

 

Ouvem-se comentários da última aquisição do novo-rico, um chuveiro musical. «É um chuveiro com magia, da feitiçaria». «Custou quatro mil dólares». As grandes naus das injustiças atormentam, alimentam a fome e as grandes tormentas das revoluções. me convenci, sei, não sei… o que é que eles têm na cabeça. Estão igualitários, possuídos por Matrix. Irresponsáveis, maldosos, incompetentes, deuses da corrupção.

Gil Gonçalves

 

 

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TECLAS PATÉTICAS DE UM PIANO3/16/2008

TECLAS PATÉTICAS DE UM PIANO

Atraído pelas teclas patéticas de um piano, som imortal, o homem da rua não consegue distinguir de onde vêm, mas mesmo assim pára hipnotizado. Sublimes marteladas nas teclas despertam a sua consciência. Sente na alma uma luz inexplicável. O seu cérebro tenta transmitir as sensações agradáveis da melodia que paira. Consegue arrastar, parar no seu caminho mais um escravo eterno. Teimamos, não aceitamos, que o perfume musical nos escraviza. Tal como o amor. que por mais que tentemos, não conseguimos explicar a doçura musical dos sons que compõem, que nos levam ao mais elementar caminho da existência humana. O amor do inicio dos tempos da nossa mocidade.

 

Comprar carro é acrescentar mais um buraco, como navegar sem mar. As estradas não são necessárias. Tudo é um mal necessário. Um horrível esforço de martírio altruísta foi projectado para o nosso modus vivendi. Consistência de perder muitas horas, encontrar a velhice precocemente, perder a saúde.

Hábitos de regozijo incutidos sem apelo devassam, grassam na lotaria das ruas que não o são. Os prémios principais são buracos, lodaçais. Ruas escavadas devido à intensa prospecção dos sentimentos petrolíferos.

Oh! Que noites, que festivais, que mãe com séquito de pardais, para onde caminhais?

A criança adianta-se, nefasta apressada. Pára, volta-se, incita o andamento. A mãe carrega a idade do sofrimento, sem lamento. Na cabeça, uma carga que não alivia a sobrevivência. Nas costas, o peso recente da infelicidade nascida, adormecida. Pela mão, a contrariedade da criança arrasta-se esforçada na contra-mão do pão.

É a mãe, das mães da negra miséria. Dos indistintos dias, das inextinguíveis noites.

Ó negra miséria, decerto no incerto caminhais. As ruas alagadas de campos petrolíferos, pastos negros, prados negros que não servem para comer, nem para beber.

Muitos poetas, advogados, economistas, poucos engenheiros.

Povo analfabeto, nunca será independente.

Sem livros, sem liberdade.

A miséria é negra, da cor do petróleo.

O poder temporal é momentâneo, o espiritual é eterno.

Gil Gonçalves

 

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O REINO PERDIDO3/15/2008

O REINO PERDIDO

(Publicado inicialmente no jornal O Observador http://observadormocambicano.blogspot.com/

Governar é muito fácil, basta ter um povo analfabeto.

 

Desempoeirava os arquivos na lisbonense Torre do Tombo quando encontrei um manuscrito surpreendente.

A corte do Rei D. João V de Portugal que reinou de 1706 a 1750, vivia luxuária com as naus que chegavam e descarregavam ouro e diamantes brasileiros. Era o rei dos deuses. O Convento de Mafra tangou 120 milhões de cruzados. O dízimo à igreja de Roma ultrapassou 200 milhões. O Aqueduto das Águas Livres?.. o povo pagou. Um rei que influencia reis actuais, copiam-no, suplantam-no. Insatisfeito, D. João V queria mais riquezas, o que prova que quanto mais se têm mais se quer, e ordenou os preparos de três embarcações, com destino à Africa Ocidental, na deriva da rapina, no saque de mais ouro e diamantes.

 

Acabou-se a aparelhagem das naus que almiranteadas por D. Fuenteovejuna, desacostaram numa manhã sedativa. Usaram a prática de apenas os capitães conhecerem o destino da viagem. Chegaram às ilhas de Cabo Verde, fizeram a Volta ao Largo, depois ficaram à mercê dos bons ventos rumando para sul. Muito navegaram e bordejaram até ao encontro de uma grande tempestade que dir-se-ia os aguardava. As vagas não vagavam as naus que descombinadas perdiam o desejo, o ser de boa paz. Chuva e ventania intensificavam-se, o que forçou as naus a largarem-se as mãos, e saírem da rota como países mal governados. Dias aziagos sucederam-se com esforços para não se afastarem, para continuarem como namorados, mas em vão, a nave capitã perdeu-lhes os vultos. O almirante do mar oceano Fuenteovejuna, não se surpreendeu quando se mareou que andava à deriva. Como os homens que fazem guerra, o mar também se cansa e amaina. Seguiu-se a dança do universo visível e um estafado marinheiro soltou algo parecido com um grito:

- Terra à vista!

- Louvado seja Deus Nosso Senhor! - Exclamou o capitão que acrescentou:

- Vamos consertar a devastação da tempestade, renovar os viveres e saber onde acostámos.

 

Exaustos, deitaram-se na areia fina do imaginário paraíso. A vegetação adensava-se e o sol rompia com a sua fornalha, o que levou Fuenteovejuna a profetizar:

- Chegámos ao país do sol!

Saboreava-se o amável convite da Natureza para bater sorna, mas o deleite não foi demorado porque das sombras da vegetação surgiram alguns seres humanos escuros, achocolatados. Um destaca-se, ergue a mão em sinal de cumprimento e Fuenteovejuna pergunta-lhe:

- Onde estamos, quem são?

- Watula! ( chegámos) saudaram os nativos na sua língua.

Fuenteovejuna, à James Cook na Austrália, sabiamente esclarece os seus homens:

- Meus senhores… estão no reino dos Watulas!

Viu a inutilidade da sua conversa porque os nativos não o entendiam. Esboçou-se, esforçou-se e marimbou-se. De repente surge uma jovem, uma natividade de extraordinária beleza que faz uma afirmação desconcertante:

- Eu entendo a tua prosa.

Fuenteovejuna olhou guloso para a jovem natividade, como alguém que não comia nadamuito tempo. Admirou-se, admirou-a, despiu-a mentalmente, aparentava vinte e cinco anos. Cor de chocolate claro, lembrava uma estátua de deusa perdida, à muito procurada pelo argonauta, uma lenda das maravilhosas ilhas encantadas, que nenhum escultor ainda esculpira. Como um sonho nunca viajado, encontrado, nunca revelado. Os seios nus, erectos e mamilos de endoidecer qualquer hominidio, sugeriam que acabavam de aportar no paraíso perdido. A cobrir-lhe o sexo publicitava, estampava a maravilhosa invenção da tanga. Fuenteovejuna esqueceu-se de Deus porque sentiu um arrepio de paixão terrena passar-lhe pelo centro do corpo. Rouquejou:

- O meu nome é Fuenteovejuna, como é que sabes a minha língua?

- Chamo-me Kufundisa, (fazer justiça) e a tua prosa aprendi nos computadores dos Dólares.

- Como se chama este reino, e quem são os Dólares?

- Este reino, agora chama-se Ajimbila, (ficam perdidos) e os Dólares governam-nos, oprimem-nos... os Dólares chegaram aqui nalgumas naves especiais, com pessoas brancas, a que o nosso povo estupidamente chama deuses e que conluiados com o rei absoluto, Ka Ubu (o eterno) nos zeraram as almas. Os nossos filhos precocemente sabem que a vitória da morte é certa. Não temos comida, não temos nada…somos zerospara sobrevivermos bazámos para a selva. Todas as riquezas do nosso reino são para os Dólares, para Ka Ubu e a sua tribo.

- E vocês não se revoltam?

- Não dá, porque Ka Ubu e os Dólares têm muitos guardas, um exército poderoso e muitas armas sofisticadas. Quando nos apanham, e como somos da oposição, fazem tais feitiços que desaparecemos e os assassinos nunca são descobertos. Também extraem um líquido, a que chamam ouro negro, e é com ele que movem as máquinas dos Dólares, e da tribo de Ka Ubu. Também extraem muitos diamantes. Somos alguns milhões e morremos de fome… infindavelmente condenados às galés infortunadas. Os do Ka Ubu estão sempre em festas, e tem umas máquinas que se chamam rádios, e estendem-nos a tentação dos convites para as maratonas deles. Nesses dias bebemos muito e comida nicles. O nosso povo nesses dias usa o passatempo da bebedeira. Os únicos que lutam ao nosso lado, que nos apoiam muito são os Ecléticos. Eles têm uma rádio, mas é quase clandestina. Apoiam os nossos ideais de justiça e igualdade para todos. São uma verdadeira rádio de Kalunga. Espalham o embrião revolucionário da evangelização, a fraternidade, o amor, e noticiam… clamam, proferem sempre a verdade. As atrocidades dos Dólares e de Ka Ubu são oportunamente denunciadas, mas não deixam que o sinal da rádiomuito longe. Quando os Ecléticos tentam longinquar o sinal e passar o direito à informação para todos, acusam-nos de malfeitoria, prendem-nos, ameaçam-nos, e se necessário libertam-nos para o universo paralelo da morte. Também contratam muitos estrangeiros aventureiros do piorio… malfeitores para nos perseguirem, nos explorarem. Ka Ubu desinteressa-se das nossas vidas. Sobrevivemos mergulhando na prostituição. Ka Ubu aprecia muito a minha beleza, consegui-lhe fugir do harém mas a qualquer momento receio ser recapturada… ele quer que eu seja sua esposa, mas não aceito, não gosto dele… ninguém lhe gosta!

 

Fuenteovejuna, depois de ouvir tudo o que a bela Kufundisa disse, guardou um profundo silêncio, depois nublou-se e desanuviou:

- Minha beleza espectacular…

- Ah! Muito obrigada

- … Kufundisa, apoiamos-te a restabelecer a paz, harmonia, justiça, para que não haja mais fome neste reino.

- E como o farás?

Fuenteovejuna não se sentia bem. A fofinha perturbava-lhe a mona. Tinha outras intenções. Depois da aventura, se terminasse a contento comeria, sugaria, todo o corpo, a beleza da Kufundisa. Decidiu-se:

- Vamos parlamentar com os Ecléticos, para que espalhem a sua rádio por todo o reino, isso é o mais importante… e quanto às armas que eles utilizam… tens alguma ideia?

- Sim! Falarei com o papá Akakakula, (dar o primeiro alimento a uma criança) era o nosso rei… continua muito bondoso, o nosso povo gosta muito dele. Foi destronado devido às ambições de Ka Ubu, e dos seus amigos Dólares.

- Kufundisa, temos que espiar as instalações dos Dólares e Ka Ubu. Alguns homens vão contigo, depois idealizaremos um plano de ataque.

- Sim! Guardarei eterna gratidão por tudo o que fazes pela nossa liberdade, pelo nosso povomas por favor não te exponhas demasiado!

Olharam-se durante um profundo momento no universo dos seus olhos. Sentiram o feitiço inevitável que atrai as duas raças, as duas cores maravilhosas. O efeito do feitiço foi rápido, abraçaram-se, beijaram-se num ímpeto de quedas de kalandula, avassalador de desejos perdidos, a aguardar o futuro prometido, ferido na angústia de tantas esperas.

 

Mais tarde, Kufundisa confundindo-se com a selva, reuniu-se com seu pai Akakakula, e o chefe dos Ecléticos, Mutongi (lutador). Akakakula apresentou a Fuenteovejuna algumas armas usadas pelos guardas de Ka Ubu e dos Dólares. Entretanto, os espiões enviados por Fuenteovejuna também se lhes reuniram, e deram o ponto da situação.

Depois de Kufundisa conseguir instruir devidamente o manejo das armas, e de Mutongi prometer apoio na sua rádio com palavras em código aos resistentes, assentou-se que os alvos primordiais seriam o líquido, chamado de ouro negro. Sem este líquido, Ka Ubu e os Dólares chorariam amargurados.

 

Efectuaram-se vários ataques com sucesso. Ka Ubu e os Dólares preocuparam-se, porque viam as imensas riquezas fugir-lhes como areia ao vento. Ka Ubu convocou de imediato um dos muitos vice-reis, e demandou-lhe:

- Não sabes quem está por detrás disto?

- Não, meu rei, não sei!

- Que morbidez

Ka Ubu tinha que demonstrar a sua zanga, insatisfação, e o melhor para um rei é ver a cólera no seu rosto, gritar, e gritou:

- …seu mórbido, pode ser essa maldita da Kufundisa, e do seu pai, esse meia-armador Akakakula.

- Sem dúvidas meu rei! O Mutongi dos Ecléticos está a passar uma mensagem na rádio dele da Kufundisa… ela diz quemuita corrupção no reino, e que vai tomar o poder com a ajuda de estrangeiros.

- Estrangeiros!? Quem, os Dólares!?

- Não meu rei, não são Dólares, são outros câmbios.

- Outros!?.. Quem!?.. Confisca-me a Kufundisa e o maldito pai dela. Vai-te e torna-te com elamaldita azarada!

 

Com o auxílio dos Dólares facilitou-se imenso o chefe dos guardas de Ka Ubu, capturar a fofinha, tenrinha Kufundisa. na presença da tirania, ressoa-se o fadário:

- nada me alumia… por causa de vocês donzelas caiem reinos, impériosagora no meu reino nasceu uma revolucionária. Tu e o teu Toussaint l’Ouverture! Dar-te-ei uma bolinação que jamais esquecerás.

- Ai é! E que bolinação é essa?

- Kufundisa, não me omitas, sabes que te desejo, que tenho todas as mulheres que quero. És a eleita, a privilegiada, a princesa do meu harém! Neste reino todas as mulheres me pertencem, e tu não és excepção!

- Não!!! Como disse um antepassado: até que as leoas tenham seus próprios historiadores, as histórias de caça continuarão glorificando o caçador. Somos corpos à espera no teu matadouro!

 - Guardas, tirem-me daqui este tsé-tsé! Prisão com ela! Que o chicote a acaricie!

Na prisão, as encantadoras costas de Kufundisa ardem com o fogo das chicotadas. O sangue da injustiça escorre-lhe porque sempre existirão muitos oceanos injustos e quase nenhuns riachos justos. Mas Kufundisa era muito sacana porque nem lamento, gemido, pedido de misericórdia osculou.

Entretanto, Fuenteovejuna e os seus amigos tomam conhecimento da prisão de Kufundisa. A revolta alastra-se, alcança o auge. Os Ecléticos com a ajuda dos populares estendiam o sinal da rádio a todo o reino, e denunciavam que Ka Ubu e os seus amigos Dólares se aprestavam à rendição. A situação desfavorecia o chefe dos Dólares que tentou negociar com os revoltosos, mas em vão. Ka Ubu, sentindo-se , raspa-se para lugar de incertezas, para o exílio habitual de um reino amigo. Um grupo de pressão chefiado por Fuenteovejuna assola a prisão e liberta Kufundisa. Os dois agora amantes aproveitam-se da situação, saltam-se, abraçam-se, beijam-se interminavelmente. Kufundisa está de rastos.

- Meu amor conseguiu! Oh! Como te amo!

- Também eusem a tua coragem nada disto seria possível!

 

Repôs-se Akakakula no trono. Mutongi rei dos Ecléticos viu a sua rádio definitivamente entronizada. Cânticos, louvores e batucadas a Kalunga foram proclamados, entoados, ritualizados. Uma época de trevas terminara, e uma informação para os sem voz recomeçara. A educação, o progresso do reino democratizaram-se. Akakakula proclamou o novo reino com o nome Azériua. (são felizes).

 

Fuenteovejuna foi-se, era um aventureiro, deixou Kufundisa com um filho. Foi para as Américas rastreando Francisco Pizarro, Fernando Cortês, do elixir da longa vida de Ponce de León… onde houver el dorados, misteriosas cidades do ouro, estaremos e nunca de sairemos.

Não tardou que aportassem a Azériua as naus com os missionários da evangelização, da espada da delapidação. Aventureiros e pistoleiros sucediam-se na busca incansável da pergunta: «onde está o ouro?» e os nativos respondiam: «aqui não, mas muito, muito longe tem» a África Negra é, será o destino dos eternos aventureiros. Ainda hoje na densidade das selvas do Golfo da Guiné, alguns mais-velhos quentes das fogueiras nas noites frias, contam às crianças a lenda do povo de Azériua.

Civilizar é destruir com o petróleo do nosso descontentamento, das nossas desgraças, misérias, fomes.

Gil Gonçalves

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RÁDIO ECCLESIA3/15/2008

RÁDIO ECCLESIA

(do latim ecclesia, igreja)

A China é um potentado económico, porque utiliza escravos como mão-de-obra. Como os Faraós na construção das grandes pirâmides. Como a riqueza dos governantes do petróleo. Ainda estamos, continuamos naqueles momentos antes de Locke e Voltaire. Antes das grandes revoluções que abalaram a Humanidade.

 

Chama-se esta Rádio, «a voz dos sem voz», que se irradiasse a todos os cantinhos, conhecidos e desconhecidos, alegraria, alentando glorificaria as almas penadas. A Igreja é a esperança de muitas almas abandonadas, de esperança perdida.

Um presidente de uma nação torna-se vitalício, porque se convence que a população o endeusa. Por isso ele tem a certeza de que não são necessárias eleições. E quem diz o nosso povo, é porque dele não faz parte.

A Rádio Ecclesia leva alegria aos corações, cria a especialidade da religião que é evitar conflitos. Não emitindo para muito longe, é como uma estátua, não se move, não fala, emudece. É como um governo sem livros, e sem livros é voltar às cavernas. Faz-se a torpe politica de silenciar uma Rádio, porqueinteresse no desencaminhar a juventude para muitas festas, muita destruição espiritual. Muitas festas, muitas noites perdidas, mentes desnutridas, destruídas. A maldade é a bíblia dos ditadores.

Evangelizar é ensinar, educar, levar luz onde há a escuridão deste petróleo diamantífero que nos traz convulsões sociais, que nos beneficia com a morte. Porque, substituir os colonos por outra cor, não é solução. Continua a vigorar a lei de excepção, cada um faz o seu melhor, espezinhando, destruindo o outro. Na opressão colonial era justo fazer a luta de libertação. Agora, na nova opressão é ilícita a libertação.

 

Se as populações perdidas na Atlântida escutassem a Rádio Ecclesia, ela ajudaria, apoiaria o verdadeiro desenvolvimento económico e social. Porque a palavra da Igreja desperta, leva as mentes do agora para o amanhã, para a dimensão futura. A Igreja com a sua Rádio é um tremendo apoio para a fuga do Neolítico. A Igreja é a vida, a alma deste povo. Retirar-lhe a Rádio, a Igreja, é suicídio. Quando as cabeças dos políticos não conseguem resolver problemas dos Estados, as guerras recomeçam. Resolver os problemas das populações é muito complicado, é mais fácil fazer guerra. Como um rei que reina mas não governa.

Com uma única rádio estatal, que desinforma a verdade, que ainda tamborila o comunismo revolucionário, e que à socapa desfaz a Rádio Ecclesia, presume-se que se prepara para voltar aos bons velhos tempos do marxismo-leninismo. Há a insistência do lugar-comum que estamos muito desenvolvidos, mas na verdade ainda não nos desabituámos da idade da pedra. Porque, há milhões de anos que andamos a aprender o que é humanismo. Até o surdo ouve o murmurar das promessas de liberdade. Os abutres estão no poder, mas o albatroz vigia-os.

a fome é proporcional aos discursos dos políticos.

a verdade nos liberta!

Gil Gonçalves

 

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O LIVRO DE JOB3/15/2008

CRÓNICAS DO PARAÍSO PERDIDO, ALGURES NO GOLFO DA GUINÉ

 

O LIVRO DE JOB

 (Inicialmente publicado em http://malambas.blogspot.com)

 

Conheci o Job na fazenda dele. Parecia-me homem sincero, recto e temente ao seu rei. Tinha fama de muito bondoso e afastava-se dos maldosos. Proliferou sete filhos e três filhas e cabeças de gado aos milhares, e muita gente para o servir. Costumavam radiodifundir que era o mais rico do reino. Os seus filhos ultrapassavam o tempo em grandes festas. Convidavam as suas irmãs a comerem e a beberem com eles. Job escolhia algumas cabeças de gado e enviava-as para o seu rei, como prova de gratidão, vassalagem.

Um dia o rei visitou-o para lhe agradecer as ofertas. Num repente aparece um general. O rei pergunta-lhe:

- Donde vem?

O general respondeu.

- Ando a vigiar estas terras.

Disse o rei ao general.

- viu o meu vassalo Job? Nãoninguém no reino que se lhe compare. Muito honesto, justo, mais que vertical e detesta as pessoas maldosas.

Respondeu o general ao rei.

- Hum! Acho que ele não faz isso em vão. O meu rei concede-lhe muito apoio. É um dos poucos vassalos protegidos. O seu gado e as suas terras não param de aumentar, graças ao rei. Ele que fique na miséria, que passe fome, vai odiar o rei e demais nobres.

Disse o rei ao general.

- Parece-me que você anda com o olho nestas terras. Sei que alguns expropriaram algumas… chegam, instalam-se… está tudo feito.

O general fez a saudação militar e saiu da presença do rei.

 

Um dia, a filharada de Job estava numa festa na casa do filho mais velho. Depois chegou um mensageiro e disse a Job:

- Os bois lavravam, as tropas do general chegaram e levaram-nos. Disseram que estavam com fome. Feriram os empregados. eu escapei.

Chegou outro mensageiro que disse:

- Incendiaram tudo. Os empregados morreram queimados. eu escapei.

Ainda outro mensageiro apareceu e disse:

- Eram pelo menos três pelotões. Roubaram tudo. eu escapei.

Mais um mensageiro chegou e disse:

- Estava a tua filharada numa festa em casa do filho mais velho. Como agora tudo acontece, veio um tufão que arrastou a casa e todos os que estavam. Ninguém ficou vivo. eu escapei para te contar o que se passou.

Job levantou-se muito chateado, rasgou a sua manta, e rapou o cabelo porque era moda. Atirou-se para o chão e clamou:

- O meu destino é igual ao dos outros expropriados. Trabalhamos nas nossas terras, o general chega, e rouba-nos tudo. Bendito seja o nome do rei!

Mesmo assim Job não se revoltou nem amaldiçoou o rei.

 

Noutro dia veio uma delegação de alto nível chefiada pelo rei. O general estava presente. Então o rei disse ao general:

- Onde tens andado? Porque não proteges os bens do meu vassalo Job?

O general respondeu:

- Estou sempre vigilante, está tudo sob controlo e não notei nada de anormal.

Disse o rei ao general:

- O vassalo Job merece a minha admiração. É a única pessoa honesta que resta no reino. Tomara que houvesse mais como ele. Confesso que os corruptos ganharam o campeonato da corrupção… e apuraram-se para o campeonato mundial. Facilmente obterão a vitória final.

O general respondeu ao rei:

- A vitória é incerta. A generalização da corrupção termina em assassinatos, ajustes de contas, até à vitória final do grande terramoto político. Ainda não sabemos como isto vai acabar.

O rei disse ao general:

- A nossa secreta informou-me que você está envolvido no roubo das terras. Tratarei disso depois. Peço-lhe que não atente contra a vida de Job.

O general baldou-se. Quando viu o luxuoso avião particular do rei desaparecer no céu, mandou alguns dos seus homens de confiança darem uma grande sova a Job, mas de maneira que não o matassem. O corpo de Job ficou macadamizado. Job apanhou uma folha de bananeira para limpar as feridas. Tudo à sua volta parecia uma chuva de cinzas. Sentou-se nos restos da madeira queimada. A sua esposa disse-lhe:

- Ainda gostas do rei? Depois do que o general dele te fez? És muito parvo!

- As mulheres não entendem nada destas coisas. Apesar de o general me roubar tudo o que tinha, devo obediência e lealdade ao rei.

- Eu é que trabalho na terra!.. o teu fanatismo é escravidão, não é lealdade! És um grande atraso de vida! Onde estão os teus amigos, em quem tanto confiavas?

- Hão-de vir... Hão-de vir!

E chegaram alguns amigos que confortaram Job. Um disse-lhe que a sua conta bancária estava em baixo. Os outros tristemente confessaram que também lhes roubaram tudo o que tinham. Que o mal era geral. Trabalhar de verdade não era possível, porque roubar é fácil. Ficaram uns dias a acalentá-lo e sentaram-se nas sobras de algumas cadeiras. Depois cansados foram-se embora. Um deles ao despedir-se reafirmou:

- O reino da fome está combalido.

 

Apareceram alguns grupos de esfomeados que aproveitaram as sobras. O local ficou igual a um deserto. Job bocejou, apetecia-lhe dormir. Falou para o vento cúmplice que arrastava as cinzas:

- Tantos e tantos anos de trabalho em vão. Nãopara trabalhar na terra, porque depois vem um general e fica com ela. Finge que a trabalha à espera que surja um sócio estrangeiro. Mas eles não acreditam nisso, e a terra abandona-se. Fica para acampamento de refugiados. As trevas dominam este reino. O rei está sempre em cima sentado no seu trono. Raramente desce, sobe, ou sai. Adora rodear-se de pessoas, que mais parecem lâmpadas fundidas, que dão pouca luz, ou acendem de vez em quando. A minha terra contamina-se, nunca mais nela nada crescerá. Resta-me olhar para as nuvens e para os restos das árvores, que parecem fantasmas ao luar. Tantos anos em vão que trabalhei. Agora tudo ficou igual às noites escuras. Nunca mais perderei anos, meses e dias nestas coisas.

E Job sente-se como o programa de arranque, o sistema operativo corrompido que não inicia o computador.

- Ah! Não vou ficar aqui toda a vida a olhar para a noite. Ainda me sobrou um tocador de CD portátil. Escutarei umas músicas e dançarei uns bons bocados. Chorar não adianta. Lembro-me que os colonos quando fugiram, preveniram-me que não valia a pena trabalhar na terra, porque depois de estar tudo bem, apareceria alguém que ma roubaria. Não acreditei, agora dou-lhes razão. Fui e continuo muito parvo. Pedir um empréstimo bancário? Nem pensar! se for para importar cerveja. Os bancos não arriscam fazer empréstimos a longo prazo. Consideram que investir na agricultura nãolucros. Porque quando chegam as chuvas as culturas ficam destruídas. Depoisque fazer novo empréstimo. O lucro tem que ser imediato, caso contrárionão deixam nada.

 

E Job, cheio de contentamento pela miséria oferecida, ainda crê que é um dom divino do rei do seu sol, da sua terra, da sua miserável vida, e reza para que o seu comandante real tenha longa vida. Mas o seu estômago desperta e aqui a verdade das verdades.

- Sinto-me muito cansado e com fome. Nem sei onde dormir… vou apanhar um bocado de capim e fazer uma casota. Uns nascem e querem tudo para eles. Nascem infectados com a doença do dinheiro. Bom, vou ver se consigo vender alguma coisa no maior mercado do continente da fome. Ou carregar sacos às costas, ou vender água fresca para viver. Arranjar uns papelões para dormir, tenho que safar-me. O rei disse que não me abandonaria, mas estou farto dessa conversa. Os seus conselheiros dão-lhes maus conselhos e aparecem ondedinheiro à vista. Os príncipes estão muito ocupados com os seus negócios, vivem num mundo distante. O reino é deles, por isso vivem no seu reino. Além disso nada mais existe. Fazem por parecer cultos, mas estão ocultos… como se não existissem. Não gostam de ser perturbados, a não ser que lhes levem um bom negócio. Eles são a lei, e nela repousam. Ninguém tem coragem de os abordar, pois o seu poder é imenso. É um reino maior que o reino. Maior que muitos reinos. Aqui nãopequenos, grandes. E quem tenta entrar jamais sai. É que não existe porta das traseiras. Porque têm um cemitério particular muito mal iluminado, para que não se possam ver as inscrições das lápides. As amarguras dos miseráveis nunca são escutadas, mas os latidos dos cães escutam-nos com muita atenção.

E Job lembrou-se que o mais cansativo, o que cansa na realidade mais pura é a fome.

- Cavar, cavar de dia e de noite à procura de diamantes, que depois de encontrados ficam ocultos. As minas são propriedade real, disso ninguém duvida. Dançam, pulam, pululam de contentes porque nãoespaço nos cofres para colocar as riquezas. Para viver neste reino é necessário matar, vigarizar e roubar. São estas as leis que funcionam. Quem não as cumprir não sobrevive. o oculto permanece, e não se pode desvendar. Tudo é permitido para obter o nosso pão. Os milhões de esfomeados em vão suspiram ao governo dos desgovernados. Nada temem e nada receiam, porque os seus exércitos não dormem, estão sempre à espreita. Ai dos prevaricadores! Apesar disso não dormem descansados. Vivem na perturbação constante de um levante, porque uma maldita rádio e jornais democráticos atiram tudo para fora, não deixam passar nada. Acusam-nos de democratas malvados, de maldita democracia que denuncia constantemente os corruptos. É por isso que ninguém gosta dos democratas e da democracia.

 

O Super-ministro do rei foi em auxílio do seu vassalo, e disse a Job:

- Não sei se aguentas o que te vou dizer, mas digo-te algumas verdades. Comeste e bebeste com muitos. Emprestastes o teu dinheiro e agora não te querem saber. mesmo um Job!.. edificaram empresas com o teu dinheiro… ajudaste muita gente!? Pareces o Job da Bíblia. Nunca vi nem conheci um idiota como tu. E alguns ainda aparecem e levam algumas bananas que por milagre se salvaram. Quem te mandou confiar no rei? Milhões confiaram nele, e como estão. A morrerem à fome!.. o rei disse que tens que esperar mais trinta anos para saíres da miséria… creio que o rei depois de morto ressuscitará e virá salvar-nos uma vez mais do imperialismo internacional. Morto ou vivo nunca desiste da luta anti-imperialista.

 

Entretanto o Super-ministro deu parecer aos arquitectos e engenheiros que construíam um bruto condomínio nas terras, que não eram de Job. Serviria para alegrar, para lazer da nobreza. Para passarem brutos fins-de-semana, na fuga da agitação da cidade, da barulheira e da anarquia dos nobres súbditos sem lei.

Perto, algumas cobras oposicionistas, descontentes rastejavam à procura de local mais aprazível para respirar. Sentiam-se deslocadas nas suas próprias tocas. Iam bem chateadas. O Super-ministro continua a desvendar os males do mundo ao grande idiota Job.  

- A questão fundamental da vida é a grande descoberta de todos os tempos. A maldita invenção que os homens fizeram – o dinheiro –. Dá muita satisfação a quem o possui, e que nunca se satisfaz, quer sempre mais e mais. Fica obcecadocomo uma ideia fixa… torna-se numa doença. A pessoa deixa de ser humana, vira uma desumanidade sem limites. É o vale-tudo. Daí não desmagnetiza o seu pensamento. No fim vem a loucura, a neurose a necessitar de urgente tratamento psiquiátrico. Provoca guerras para obter mais e mais, até à destruição do planeta… da humanidade. Provoca uma grave contradição: O dinheiro resolve muitos problemas, mas quanto mais abundante mais problemas trás. É isto a origem da maldade.

O Super-ministro vai ao Hummer, traz a caixa térmica, abre-a. Retira uma garrafa geladíssima de Dom Perignon com cinco anos de idade. Convida Job mas este recusa com a cabeça. Satisfaz-se com uma farta golada. Reconta a exercitação de Job. 

- Sabes Job… o nosso reino é como um universo-ilha. Os ricos são fábricas de lixo. Os seus lares produzem-no em abundância porque consomem muito. E obrigam-se a consumir o que a sua ira produz. Nem as plantas e os animais lhes escapam, porque montanhas de resíduos lhes caiem em cima todos os dias. Quando a consciência da Natureza se revolta, chamam-lhe calamidade natural... e as vítimas são imensas… os seres humanos que escapam vivem dispersos, na fuga incerta, permanente. A Natureza sussurra os seus segredos, mas ninguém os entende, ou finge não entender. Aparece-nos em visões à noite, e desaba em cima de nós, precisamente quando estamos no sono mais profundo. Acordamos espantados e estremecemos perante tal poder. Os espíritos vagueiam à nossa volta, poucos povos os entendem. O vento fala-nos, previne-nos, mas os nossos olhos nada vêem. Está tudo corrompido, somos todos corruptos!

Perto, talvez apelando aos antepassados, cantando a sua desdita, a negra-bantu demonstra, desmonta as coxas muito salientes, e os seios fartos, muito dissidentes, que equidistantes bamboleiam, falantes. O Super-ministro regozija-se com a beleza natural, espontânea da bantu.

- Job… explicar estas coisas

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